Resenha: "As Cidades Invisíveis" de Ítalo Calvino
- Paulo Vinicius
- 27 de dez. de 2018
- 5 min de leitura
Somos colocados na corte de Kublai Khan onde Marco Polo está contando ao soberano as cidades por onde ele viajou. Somos apresentados aos ares, às curiosidades e às culturas fantásticas de cidades que são, foram ou serão parte do Império Mongol.

Sinopse:
"Se meu livro As cidades invisíveis continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjeturas." Assim se refere a este livro o próprio Italo Calvino - um dos escritores mais importantes e instigantes da segunda metade do século xx. O famoso viajante Marco Polo descreve para Kublai Khan as incontáveis cidades do imenso império do conquistador mongol. Neste livro surpreendente, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar um símbolo complexo e inesgotável da experiência humana. Esta edição traz oito desenhos inéditos de Matteo Pericoli realizados especialmente para a Companhia das Letras.
A prosa de Ítalo Calvino é bela e flui como uma doce canção de primavera. Analisar um de seus trabalhos é um prazer e eu tive o privilégio de começar a conhecê-lo através de As Cidades Invisíveis. Não há como enquadrar o autor em um gênero literário. Mas, por conta de sua tendência a abraçar o fantástico e o maravilhoso, tive a oportunidade de colocar sua resenha em um blog que trata de fantasia e de ficção científica. Por essa razão curtam comigo estes poucos parágrafos a respeito de uma obra que eu podia falar por horas a fio.
Este não é um livro sobre personagens. Não há um protagonista humano aqui. Se eu posso mencionar um protagonista, ou melhor, protagonistas, são as cidades descritas por Marco Polo. Todas elas possuem algum tipo de característica que as tornam únicas na visão do contador de histórias. As conversas entre Kublai Khan e Marco Polo servem para dividir as várias seções narrativas. Mais adiante vou explicar por que estas seções existem. Por essa razão falar de personagens em As Cidades Invisíveis é fugir do propósito último do autor.
"Chega um momento da vida em que, entre todas as pessoas que conhecemos, os mortos são mais numerosos que os vivos. E a mente se recusa a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todas as faces novas que encontra, imprime os velhos desenhos, para cada uma descobre a máscara que melhor se adapta."
Somos guiados em uma intensa viagem por várias localidades diferentes. Se eu posso associar a narrativa a algum gênero literário é o de exploração, é o de viagem. Como em Herland, de Charlotte Perkins Gilman, onde a autora nos guia através de uma cidade e nos apresenta todas as suas características. A ideia geral é o da crítica social e a jornada pelas diversas cidades é a mola propulsora para isto. Mas, esta viagem é feita de uma maneira tão sutil que o leitor antes fica encantado para só então perceber o que se esconde por trás do maravilhoso. É uma fórmula genial.
Os capítulos são bem curtinhos, fazendo com que o leitor seja capaz de ler o livro em pouco tempo. Eu recomendo uma leitura mais homeopática, como se fossem pílulas de maravilhamento diárias. Escolha um capítulo e se deleite nas linhas de Calvino. Não há uma ordem de leitura específica... não existe um desenvolvimento lógico per se. É totalmente possível ler um trecho final e depois voltar para o início; quem faz a ordem é o leitor. Os mapas são meras ilustrações do que Calvino imaginou para estas cidades. Aliás, dizer que a arte de Mateo Pericoli é "mera" arte chega a ser um insulto. Ele consegue dar vida a algumas das dezenas de cidades criadas pelo autor.

Uma cidade é feita pelas nossas lembranças, nossas sensações a respeito dela. O que imaginamos a respeito de uma cidade é a realidade sensível da mesma. Nossas lembranças, nossas experiências. Marco Polo tenta explicar isso para Kublai em uma das interrupções quando ele pede que o viajante fale a respeito de uma cidade real e não uma de suas digressões fantasiosas. É difícil individualizar uma experiência única. Aí é que entra o papel do contador de história (e eu já chego nisso). Ao longo dos diversos diálogos que Marco tem com Kublai, o que ele comenta são as coisas que ele percebeu em suas andanças pelas cidades. Por isso que podemos dizer que a percepção sobre o universo que nos cerca é algo muito subjetivo. São as coisas e os ambientes que nos chamam a atenção; e o que nos chama a atenção não necessariamente vai chamar a do próximo.
Existe também uma relação de afetividade com a cidade. Seja um lugar que foi importante para você, ou algo que te faz recordar de um acontecimento. Todas as cidades estão em eterna mutação, mas todas elas possuem um pouquinho de uma história que pode ou não se relacionar a uma memória. Pode ser um letreiro, o cruzamento de uma rua, uma casa específica. Marco coloca que nenhuma cidade é estática no tempo e no espaço. Ele convida a Kublai a conhecer estas cidades e ter suas próprias experiências já que o habitar em uma cidade ou visitar uma é uma jornada também de autoconhecimento.
"O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá."
No começo a narrativa de Calvino se parece muito com um relato de cidades mesmo. Uma descrição das características de cada uma delas a seu governante. O aspecto fantástico vai brotando aos poucos e crescendo à medida em que o autor continua sua trajetória. Quando vamos nos dar conta, não conseguimos estranhar alguns aspectos absurdos como uma cidade dos vivos e uma cidade dos mortos no subsolo, ou uma cidade cujas casas estão suspensas no ar, ou uma cidade submersa onde as náiades habitam lado a lado com os humanos. Calvino introduz o fantástico com absoluta naturalidade e é por isso que é tão difícil para o leitor entender As Cidades Invisíveis dentro do gênero da fantasia. O livro tem muito de um romance de viagem e o fantástico não é um objetivo final, mas um meio para se chegar àquilo que o autor deseja.

Marco Polo é um narrador não confiável. Isso porque ele atua como um contador de histórias junto a Kublai. Para um contador de histórias o que mais importa é a manutenção do público atento àquilo que está contando. Claro que existe um compromisso com a veracidade dos fatos, mas os pormenores do mesmo ou como ele vai chegar a essa verdade é interpretativo. O contador pode embelezar certos trechos, aumentar certas verdades para que o leitor sinta a emoção do que está sendo contado. Ele chega até a usar o recurso de parábolas onde uma história é contada de forma a passar uma mensagem perceptível apenas no final do relato. Calvino nos dá uma aula sobre o ofício do contador de histórias.
As Cidades Invisíveis é uma pérola no meio de tantos bons livros que se debruçam sobre essa forma de narrar. A escrita é pura poesia na medida em que cada frase é pensada com muito esmero. É possível perceber até uma certa musicalidade nas linhas. As ilustrações de Pericoli também são lindas, mas eu gosto de pensar que eu acho mais bacana quando o próprio leitor busca criar sua imagem sobre o que Calvino está descrevendo. Não desmerece nem um pouco o trabalho do artista, é só uma preferência da minha parte. No mais, uma obra recomendadíssima a todo amante da arte da escrita.
“Imagens memoráveis, uma vez postas em palavras, são apagadas”.


Ficha Técnica:
Nome: As Cidades Invisíveis
Autor: Ítalo Calvino
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance Histórico/Fantasia
Tradutor: Diogo Mainardi
Número de Páginas: 208
Ano de Publicação: 2017 (edição com os mapas)
Link de venda: https://amzn.to/2qVdsJg
*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras
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