Resenha: "Dragonero vol. 9" de Luca Enoch, Andrea Bormida e Giacomo Pueroni
- Paulo Vinicius
- 22 de set. de 2022
- 5 min de leitura
Após serem chamados para proteger um nobre da cidade de Viridart, Ian e Gmor salvam um curador chamado Leario do ataque de uma bruxa. Mas, isso irá atrair a atenção de outras bruxas que virão em busca de vingança.

Sinopse:
Ian e Gmor devem organizar a segurança do casamento da filha de um rico e poderoso vassalo do Império. O homem usa seu poder para oprimir o povo, e teme que ele, ou a filha, possa se tornar alvo de um matador de aluguel. Mas identificar o misterioso assassino, presente na cerimônia, não será fácil.
O nono volume marca o retorno de Luca Enoch nos roteiros da HQ e temos uma história um tanto peculiar. Aquele tipo de história que parece ser simples e direta, mas à medida em que paramos para analisar determinados pontos ela vai tomando outros contornos. Já há algumas edições Stefano Vietti vinha acrescentando novos elementos à mitologia do mundo de Dragonero e aqui, Enoch acrescenta as bruxas e os curadores. Mas, não pensem que tanto um como o outro são iguais aos tipos de personagens que vocês imaginam. O autor conseguiu dar uma outra roupagem a eles e os colocou com papéis bastante inusitados. Infelizmente esse é mais um volume com uma arte que não tem nada de muito especial, mas nem de longe é um desenho ruim. Só que frente a alguns artistas que já passaram pela HQ a gente se decepciona um pouco.
Ao seguirem para uma missão na cidade de Viridart, Ian e Gmor se deparam com um homem sendo atacado por animais selvagens sob o controle de uma bruxa. Depois de matarem-na, Ian é atingido por uma maldição, mas graças aos esforços de Leario, que revela ser um curador, sua vida é salva. Ele segue a dupla até a cidade onde acabam por se separar. A missão de Ian e Gmor revela ser a proteção do nobre da cidade que, mesmo relutante no começo, aceita a proposta. Só que a cidade está às vésperas do casamento de Ilyana, filha do nobre em questão, o que vai trazer uma série de pessoas desconhecidas à cidade, aumentando o número de suspeitos. Não ajuda também o fato de o nobre ser uma pessoa detestável, com inimigos por toda a parte. Sem falar nas bruxas que estão vindo se vingar e em Leario que esconde um terrível segredo.

Essa é uma edição com dois artistas e o que cada um faz não fica exatamente claro para o leitor. Deduzo que um deles é responsável pela estrutura do desenho enquanto o outro fica com a arte-final. Mas, mesmo com dois artistas o traço não conseguiu se destacar em uma HQ com um alto nível naqueles que vieram antes. Ter uma história que possui muitos elementos no fundo seja um cenário com várias casas e construções, seja uma série de pessoas em uma festa, não contribui para facilitar a vida deles. Talvez esse seja o motivo para termos dois artistas, dando tempo para cada um se concentrar em sua etapa criativa. A narrativa possui um ritmo mais de mistério, o que faz com que as cenas sejam mais paradas, obrigando os artistas a serem mais precisos em suas pinceladas. Uma coisa que me incomodou um pouco é que em uma cena com muitos personagens, a maior parte dos modelos de design de personagens são iguais. Para não cair numa armadilha dessas, teria sido melhor fazer as cenas mais de interior do castelo, não deixando tantas externas. Dava mais trabalho e reforçava as limitações dos autores. No mais, a arte faz um bom uso de cenários abertos e na mata, algo que se torna essencial para os personagens já que a história se passa no começo e no final em espaços amplos. Outro detalhe que me chamou a atenção é em como o design do Ian e do Gmor está ligeiramente diferente em relação a outros artistas, mas nada que seja bom ou ruim, apenas diferente mesmo.
Na narrativa somos apresentados a um curador que logo no começo da história, o próprio Leario nos explica (mas não aos personagens) rapidamente como funciona o seu poder: ele absorve a doença ou ferimento para si e devolve para outra criatura. O personagem nos é apresentado como um homem solícito, meio covarde e bastante bonachão. Vemos um pouco da infância dele onde ele precisa aprender a lidar com seus poderes desde cedo e aprende duras lições somo como melhor usá-los. A HQ nos passa uma imagem sobre um personagem bastante simplório e que ganha suas moedas se aproveitando dos ricos, mas sendo bondoso com aqueles que não possuem recursos. O envolvimento dele com as bruxas não fica claro exatamente (não vou dar spoilers nesse sentido), mas parece que ele fez alguma bobagem com uma delas. Fora que as bruxas percebem os poderes dele e o entendem como uma pessoa perigosa e que precisa ser eliminada.
Os trechos mais leves dessa história ficam a cargo do nobre e de sua filha. O nobre é aquele típico nobre nojento e pedante que cobra impostos pesados e não se importa em explorar seus cidadãos. Ou seja, um homem que tem inimigos bastando sair dos portões do castelo. Sua filha Ilyana é uma típica menina mimada e desagradável. Ela quer um casamento caríssimo com direito a tudo o possível e imaginável. Porém, agradar os desejos da garota pode pôr ainda mais pessoas estranhas na cidade e se existem suspeitas de que o nobre possa ser morto, quanto mais elementos desconhecidos pior será. Tem várias tiradas engraçadas, mas a melhor delas é o pai desejando empurrar a filha para o "pobre coitado" do seu genro que não sabe no que se meteu.

Um tema bastante importante mencionado nesse volume é o do controle da vida e da morte. Temos o direito de dizer quem pode viver ou morrer? Por mais que procuremos racionalizar isso usando argumentos lógicos ou citando injustiças, interferir em uma lei natural pode levar a uma situação eticamente ruim. Porque não é justo com quem padece e nem com quem tem o controle. É o que chamamos de complexo de Deus. Estar diante de uma posição dessas pode destruir a nossa noção de mundo. E o autor coloca esse tema de uma maneira tão sutil que quando vemos o que aconteceu, já está na nossa cara. Adorei como ele subverteu expectativas ao colocar detalhes tão pequenos no meio da história. Como ele fez o leitor pensar de uma forma, nos colocando uma visão superficial boba sobre um personagem quando ele é bem mais complexo do que parecia à primeira vista. Foi revelador e uma boa aula sobre construção de personagens.
O nono volume de Dragonero apesar de ter uma história fechada, contribui para o cânone do mundo criado por Enoch e Vietti ao mesmo tempo em que consegue nos apresentar uma narrativa bastante direta. Mesmo assim, alguns truques de roteiro conseguem surpreender o leitor e levar a um final que deixa um gancho duplo interessante para ser explorado em futuras histórias. A arte não me agradou muito por estar ali. Não há elementos que eu possa destacar como impressionantes. Ter tido autores tão destacados em edições anteriores não contribui também para uma avaliação menos parcial. Mesmo assim, é uma baita HQ.


Ficha Técnica:
Nome: Dragonero vol. 9 - O Toque da Morte
Autor: Luca Enoch
Artistas: Andrea Bormida e Giacomo Pueroni
Editora: Mythos
Tradutor: Julio Schneider
Número de Páginas: 100
Ano de Publicação: 2021
Outros Volumes:
Vol. 0 Vol. 5
Vol. 1 Vol. 6
Vol. 2 Vol. 7
Vol. 3 Vol. 8
Vol. 4
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