Resenha: "Knights of Sidonia vols. 9 e 10" de Tsutomu Nihei
- Paulo Vinicius
- 2 de nov. de 2023
- 6 min de leitura
Depois de se separar do grupo de ataque aos gaunas, Shinatose vai parar no planeta Nine onde precisará sobreviver a uma avalanche de inimigos. Nagate e Tsumugi partem para o resgate, mas as coisas se complicam quando surge Benisuzume. Hora do acerto de contas!

Sinopse:
Sidonia inicia o seu plano de investida contra a Nave Mass Union Grande, e o primeiro objetivo é tomar controle do Planeta Nine, que fica no ponto médio entre os dois. Porém, a tropa inicial de reconhecimento, que contava com participação de Izana, é abatida pelos Gaunas escondidos no planeta! Agora, Nagate e Tsumugi se juntam para resgatar os sobreviventes da tropa, principalmente Izana! No entanto, os Gaunas agem como se soubessem que esses dois viriam, e quem se posta no caminho deles é o arqui-inimigo Benisuzume…
Contém spoilers de volumes anteriores!
Essa é uma edição toda orientada para ação. Na última edição vimos que o setor de pesquisas decidiu testar Tsumugi no campo de batalhas; e o setor de desenvolvimento bélico criou um novo modelo de robô com uma kabi diferenciada. Eles partem para o ataque na nave Mass Union menor como teste de campo, mas as coisas acabam saindo errado quando o grupo da Shinatose se vê precisando fugir. Eles acabam indo parar no planeta Nine e, desacostumados com a gravidade, precisam lidar com um grande grupo de gaunas. Nagate e Tsumugi partem para o resgate, mas acabam esbarrando em Benisuzume. Nessa edição temos também uma batalha campal do Nagate contra centenas de gaunas. Mesmo com tanta ação acontecendo, ainda temos alguns momentos para investigar os sentimentos crescentes da Shinatose pelo Nagate e o quanto o fantasma da Hoshijiro paira no ar. Será amor ou culpa?
Vou falar primeiro da arte porque é o ponto mais direto no volume 9. A edição é toda orientada para o combate. Mais de dois terços se passam no planeta Nine e o finalzinho também tem mais um. Então a maneira como Nihei coreografou a ação é importante para a compreensão do que está acontecendo. Nos três capítulos iniciais, os balões de diálogo são bastante escassos, mas se o leitor for atento ao que está acontecendo nas cenas, dá para entender numa boa. Só que: precisa ter calma ao passar as páginas. Se o leitor se concentrar nos diálogos, vai perder momentos importantes das cenas e até pequenos gestos que são importantes para a compreensão do todo. Por exemplo, Tsumugu se comunica muito por suas expressões (ou ausência delas), então no combate contra Benisuzume, ela parece estar entediada com o prospecto de enfrentá-la, até que sua adversária a surpreende em um curto espaço de tempo. Isso é contado sem falas, apenas na arte mostrando o confronto das duas. Ou mais tarde quando a Hoshijiro-gauna invade o cockpit do Nagate. A gente só consegue entender o objetivo dela através do que ela faz naquele pequeno espaço de tempo. A ação é muito boa e Nihei continua tendo uma ótima noção do que acontece nas cenas. O design de personagens é bizarro... parece que o Nihei se desafia a desenhar algum bicho biomecânico mais estranho que o anterior a cada edição.

Mesmo sendo um volume bem mais puxado na ação, a gente tem bons desenvolvimentos de personagem. Por exemplo, ter que enfrentar Benisuzume é um desafio para Nagate. Isso porque ele ainda sofre com a culpa por não ter conseguido salvar a Hoshijiro. O fato da Benisuzume usar a aparência dela é quase um tapa na cara do Nagate. Não sabemos ainda qual a real intenção desse gauna em particular, principalmente depois de perceber que a sua placenta consegue agir de forma independente do núcleo. Nagate parece amadurecer mais nessa edição e se torna alguém de bastante confiança para a nave. Ele é a diferença fatal entre a vitória e a derrota aqui. O que ele faz quando resgata a Shinatose é incrível. Tem um momento posterior quando a placenta se separa do núcleo e parte para o ataque frontal, fiquei meio apreensivo principalmente porque a Shinatose estava junto dele ali. Mas, pelo menos parece que o Nagate conseguiu superar esse pedaço de sua angústia, apesar de ela estar sempre presente ali.
E por falar na Shinatose, ela volta a ser parte da história correndo no fundo. E está mais do que na cara que ela se apaixonou pelo Nagate. Não entendi bem a conversa da Yuhata com a Shinatose sobre a biologia hermafrodita dela. Ela pode ser mais feminina ou masculina de acordo com o parceiro? Se for o caso, não gostei disso... me parece ser só uma desculpa para ela fazer par com o Nagate. Se for algo só comportamental, beleza, acho a proposta interessante e nos ajuda a entender questões de representatividade. Se for isso, dou os parabéns para o Nihei. Se for modificação biológica, não gostei. Porque aí parece que a Shinatose tem que se tornar uma mulher com atributos biológicos desenvolvidos, o que não é uma forma respeitosa de tratar o tema. De toda forma, gosto do dilema vivido pela personagem. Desde o começo quando o autor começou a tratar com mais atenção o que ela é e como ela se vê, a personagem passou a ter muitas camadas. Aliás, prefiro ela pareando com o Nagate do que uma possível aparição insana de uma Hoshijiro sintética. E isso me leva a Tsumugu que o Nihei deixa pistas que pode vir a formar um triângulo amoroso pelo coração do Nagate. Isso sim me preocupa um pouco também. A dinâmica deles como uma família maluca me agrada mais.

No volume 10 temos uma continuidade no relacionamento entre a Yuhata, a Shinatose, a Tsumugu e o Nagate. Acontece um acidente que deixa a Shinatose bastante ferida e isso serve como um catalisador para explorarmos o carinho que todos sentem por ela nesse tempo em que eles passaram a viver juntos. Aqui ficou mais claro de que maneira o Nihei está explorando a questão sexual dela, e, ufa... fiquei mais aliviado. Tem a ver mais com como ela enxerga a si mesma. No começo da série, a personagem era bastante neutra. Dava até para pensar que a feminilidade dela tinha a ver com algum tipo de personagem andrógino, como é comum em mangás japoneses. Mas, pouco tempo depois, ela explica a situação dela e isso fica mais claro. De algumas edições para cá a personagem deixou de ser uma pessoa solitária e passou a viver junto de outros. E ela começa a despertar sentimentos pelo Nagate. É muito bacana vermos a amizade que se desenvolveu entre ela e a Tsumugu e como a Shinatose vê na Yuhata uma confidente.
Mas, o tema central desse volume é a transformação de seres biológicos em armamentos. Tsumugu é o resultado da visão científica do Kunato em usar gaunas para criar quimeras. A quimera é um sucesso porque ela possui uma personalidade predominante. Só que Kunato quis ir além e daí surge Kanata, a quimera de número 2. Essa é um pouco diferente de Tsumugu, com capacidades reprodutivas, habilidades transmutadoras e até controle da mente. O leitor é levado a imaginar que as experiências do Kunato são um segredo conhecido apenas pelos membros de sua corporação. Mas, percebemos que isso não é o caso e tem gente da nave que ajuda a encobrir e a estimular o desenvolvimento bélico. Como qualquer arma de alto poder de destruição, existe sempre algum porém em sua utilização. E o controle sobre Kanata não é tão fino assim. Ou seja: estava na cara que alguma coisa ruim iria acontecer. Pensar que toda a confusão aconteceu pela ambição do homem de criar algo extremamente poderoso para destruir seus inimigos é quase um espelho do que foram os testes nucleares durante a Guerra Fria. Quaisquer efeitos colaterais são apenas um reflexo de nossa tolice.
Tirando o trecho final desse décimo volume, não vi nada de muito especial neste volume. Assim como no anterior. Gosto das cenas de ação do Nihei, mas algumas das páginas tem traços tão finos que parece que não foi arte-finalizado. Pode ser uma característica específica do autor, mas me incomodou um pouco. As cenas deste volume se passam mais internamente. Confesso que o primeiro e o último capítulos deste volume são os que mais me agradaram por se passarem no interior da nave e em lugares que não haviam sido explorados ainda. Sem mencionar que o Nihei precisou conter mais a sua loucura em criar criaturas bizarras. Gosto muito do design da Tsumugu quase sendo alguma espécie de princesa alienígena, mas com um poder avassalador. Kanata também é medonho. Fico imaginando aquele rosto bizarro que parece saído de algum jogo do Metroid, da Nintendo. No mais, foram dois volumes de transição e que posicionaram as peças para o ato final a acontecer nos próximos volumes.

Ficha Técnica:
Nome: Knights of Sidonia vols. 9 e 10
Autor: Tsutomu Nihei
Editora: JBC
Tradutor: Denis Kei Kimura
Número de Páginas: 191 e 175
Ano de Publicação: 2017
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