Resenha: "The Big Book of Science Fiction" organizado por Jeff e Ann Vandermeer (parte 2)
- Paulo Vinicius
- 3 de jan. de 2018
- 11 min de leitura
Atualizado: 6 de jul. de 2019
Nesta segunda parte teremos alguns autores do início da era de ouro da ficção científica. Além de outros autores bem interessantes como Jorge Luis Borges.

Nesta segunda parte temos os seguintes contos:
1 - "The Conquest of Gola" (de Leslie F. Stone) - 1931
2 - "A Martian Odyssey" (de Stanley G. Weinbaum) - 1934
3 - "The Last Poet and the Robots" (de A. Merritt) - 1934
4 - "The Microscopic Giants" (de Paul Ernst) - 1936
5 - "Tlon, Iqbar, Orbis Tertius" (de Jorge Luis Borges) - 1941
6 - "Deception" (de Clifford D. Simak) - 1944
E vamos às resenhas:
1 - "The Conquest of Gola"
Autora: Leslie F. Stone Avaliação:

Publicado originalmente em 1931
O gênero de ficção científica por muitas vezes se revelou (e ainda revela) como um ambiente machista. Nos dias de hoje temos uma abertura maior e vemos autoras incríveis como Ann Leckie e Nnedi Okorafor escrevendo belíssimas histórias. Mas, nos primórdios da publicação do gênero, para que uma mulher conseguisse publicar uma história de ficção científica ela costumava adotar um pseudônimo ou usar apenas as iniciais do nome. Leslie F. Stone foi uma pioneira nesse sentido porque desde o começo ela usou o seu próprio nome sem pudor. Por essa razão, muitos estudiosos da literatura de ficção científica acreditam que ela tenha sido a primeira a ser publicada em grandes revistas do gênero na época como a Amazing Stories e a Weird Tales. O que sabemos hoje não ser verdade, mas mesmo assim é incrível a coragem da autora.
The Conquest of Gola é claramente um conto feminista. A autora emprega a ficção científica para jogar na cara da sociedade uma série de contradições da sociedade patriarcal. E ela faz isso de uma forma tão elegante na história que é de ficar maravilhado. Na história, somos apresentados a Gola (na verdade o planeta Marte) e como os terráqueos iniciam uma série de campanhas de conquista ao planeta. Todos eles frustrados pelos golanos cuja sociedade é governado por mulheres. Os homens são seres subalternos e tratados da mesma maneira como nós tratamos nossas mulheres.
A magia da história não está apenas em apresentar uma sociedade matriarcal. Está no fato de a narração da história ser feita do lado alienígena do conflito. A narrativa é em primeira pessoa contada pelo ponto de vista da filha da líder do planeta. E outro elemento curioso é que estes alienígenas tem uma estrutura corporal bem diferente da nossa. Logo nas primeiras páginas, a narradora expressa o seu desgosto quanto ao corpo ineficiente dos terráqueos. Leslie tem uma escrita muito boa e a compreensão da história é bem simples. Não há o uso de jargões ou palavras complexas. E o que é apresentado de científico na história é bastante plausível.
Quem acredita que uma sociedade matriarcal é mais pacífica que a nossa vai ter uma grande surpresa. Logo nas primeiras páginas a narradora expressa a falta de vontade da raça dos golanos de se expandir para outros planetas. Porém, isso não significa que eles ficarão parados enquanto os terráqueos tentam tomar o que é deles. Um dos trechos mais interessantes da história é quando o capitão da tropa terrestre troca o discurso de amizade por um de ameaça e conquista rapidamente. É justamente o que nós esperaríamos de uma expedição terrestre ao espaço. The Conquest of Gola foi uma das melhores coisas que eu li nesta coletânea até o momento. Vale a pena conhecer o trabalho da Leslie F. Stone.
2 - "A Martian Odyssey"
Autor: Stanley G. Weinbaum Avaliação:

Publicado originalmente em 1934
Quando tentamos imaginar como seria uma inteligência alienígena, quase sempre tomamos a nossa própria função cerebral como parâmetro. Mas será que os alienígenas pensam da mesma forma como a gente? É com essa proposta que Stanley G. Weinbaum, o mago das histórias de ficção científica da década de 1930 parte para contar essa história. Ele apresenta três raças alienígenas completamente bizarras. Cada uma delas funciona de um jeito distinto da outra. Não é que elas sejam benignas ou malignas, apenas as suas funções cerebrais estão em uma outra profundidade do que a nossa. Partindo da compreensão que esta temática está sendo abordada em plena década de 1930, é possível entender por que o autor foi considerado um escritor de vanguarda. Uma pena que ele tenha falecido jovem e muito do que temos dele são o pouco que ele produziu em vida e algumas coisas publicadas após sua morte.
A história é um relato narrado por um membro da equipe de exploração de Marte sobre o encontro que ele teve com um Tweel, um dos estranhos habitantes deste planeta. Junto deste ser, Jarvis, o protagonista, vai viver uma série de aventuras em que irá conhecer uma raça milenar e imortal e tentar encontrar o caminho de volta para a sua nave após um acidente. No quesito ciência, o autor não deixa nada a desejar a bons escritores de ficção científica dura. Apesar de faltar uma série de informações a ele, sentimos que o autor se preocupou em comentar sobre a composição química de Marte, a possibilidade ou não de haver água ou oxigênio e até como os outros planetas são enxergados tendo como parâmetro o planeta vermelho.
Dá para perceber claramente que o autor deseja trabalhar a noção de outros tipos de inteligência. É engraçado como Stanley nos cutuca várias vezes porque sempre costumamos pensar em raça inteligente tendo nós mesmos como parâmetro. Jarvis se desculpa uma série de vezes e se auto-analisa pro ter julgado mal as criaturas com quem ele teve contato. Mas, ao mesmo tempo, é incrível a maneira como o autor trabalha a relação entre humano e alienígena. Como o protagonista precisa fazer uma série de tentativas e erros até ele conseguir se comunicar de forma razoável com o Tweel. Fora a criatividade incrível do autor ao desenvolver criaturas tão bizarras.
A escrita do autor pode parecer um pouco difícil para alguns leitores. Ele se perde bastante em elucubrações e teorias que tornam a leitura truncadas em alguns pontos. A todo momento os membros da equipe fazem uma espécie de discussão e perguntas acerca das descobertas feitas por Jarvis. Entretanto, o conto vale a pena ser lido por conta da genialidade do autor. E demonstra para nós o quanto o autor conseguiu deduzir a partir do pouco de informações que ele tinha à disposição e o quanto ainda seria descoberto depois.

3 - "The Last Poet and the Robots"
Autor: A. Merritt Avaliação:

Publicado originalmente em 1934
A possibilidade de os robôs ultrapassarem sua programação mais mecânica e alcançarem algo mais sempre esteve na mente dos autores de ficção científica. Muito antes de existir uma Skynet, a preocupação com um mundo governado por máquinas já aparecia em algumas revistas pulps da época e Abraham Merritt foi um desses autores. Neste trabalho, os robôs desejam obter uma mente criativa, algo que é impossível através de meios normais por conta de suas limitações. Mas, o grupo isolado de Narodny, protagonista do conto, é formado pelos maiores cientistas de sua época. Ao mesmo tempo em que são mentes incríveis em suas respectivas áreas, despertaram interesse em artes e outros campos menos exatos. Achei que o autor se focou demais no grupo de Narodny e menos no grupo dos robôs. Queria poder entender mais o que aconteceu acima da superfície (Narodny e seus colegas moram em cavernas escavadas na rocha) e como eles se relacionavam com os cientistas.
Outro tema importante é o do isolacionismo. Não me parece aqui que o autor estaria fazendo uma crítica ao isolacionismo. O que eu vi foi que Merritt ressaltava as vantagens de estarem fazendo aquilo que eles quisessem nas cavernas em que se encontravam. Talvez fosse uma marca do período em que viviam repleto de desconfiança e medo sobre uma guerra que se avizinhava, mas o fato é que a história faz esse elogio. Claro que ao final do conto existe uma contrapartida que reforça a possibilidade de se viver em sociedade e trabalhar cooperativamente, mas se trata de um adendo no final.
A escrita é em terceira pessoa, mas a narrativa carece de um grande número de descrições e floreios que tornaram a leitura muito cansativa. Um parágrafo continha pouca informação além de referências a obras famosas ou a músicas clássicas. Isso acabou por tornar a leitura truncada em vários momentos. É curioso ao comparar com o conto a seguir que possui uma história nitidamente mais simples, mas que a escrita rápida e dinâmica favorece o leitor. Recomendo a leitura, mais para conhecer o autor que escreveu dezenas de romances e contos no gênero. Existem até várias coletâneas nos últimos tempos dedicadas à sua obra.
4 - "The Microscopic Giants"
Autor: Paul Ernst Avaliação:

Publicado originalmente em 1936
O tema da terra oca já foi explorado por vários autores. O mais famoso trabalho nesse sentido é Viagem ao Centro da Terra de Jules Verne. Existem cientistas que até hoje pesquisam a possibilidade da existência de espécies humanas ou animais vivendo próximo ao núcleo do planeta. Gostei da maneira como Paul Ernst deu um toque meio de terror a uma história que já parecia até meio batida na época em que ele escreveu.
Frank e Belmont são dois mineiros buscando fazer a extração de cobre para alimentar a indústria de guerra da época. Mas, ao se meterem em escavações profundas estranhos fenômenos começam a acontecer. Com um mote simples desses a possibilidade de render uma história chata ou sem graça seria algo muito possível. Mas, em uma narrativa que valoriza a tensão e a observação dos personagens a tudo o que se passava ao redor, o autor consegue dar um brilho nas linhas. Não é aquela história que vai mudar a sua vida ou fazer você refletir sobre algum tema em particular, mas certamente me divertiu por aquelas poucas páginas.
O elemento de terror também está presente na trama e a história em si me lembrou algo saído da mente de Lovecraft. Sem dúvida alguma que as semelhanças estavam ali. Os personagens são apresentados o tempo todo dentro de um ambiente hostil e o que eles estariam ou não vendo seria impossível de ser revelado por conta do absurdo que era aquilo que se tratava. Nem foi necessário entrar demais na parte tecnológica da coisa, mas o autor mesmo assim fez. Gosto quando os autores não complicam o que não precisa ser complicado: ali bastava apresentar o medo e o pavor do impossível. A explicação era o de menos. Sabe quando algo fantasioso é mais legal quando você não perde tempo explicando ao leitor que uma bola de fogo é feita de átomos de carbono, mas sim de magia pura e simples? É isso o que temos aqui.
Enfim, recomendo esse conto que tem muito de aventuresco e maluco, duas qualidades que vão agradar até o mais exigente dos fãs. Mais um conto da época de ouro que ressalta as qualidades desses escritores que com um pouquinho de imaginação conseguiam construir boas histórias.

5 - "Tlon, Iqbar, Orbis Tertius"
Autor: Jorge Luis Borges Avaliação:

Publicado originalmente em 1941
Ler Borges é uma experiência. Sempre haviam me dito isso, mas eu sempre achei um exagero. O autor é cercado de uma aura quase mitológica que para mim era incompreensível. Como um autor que nunca escreveu um romance pode ter todo esse hype? Bom, quando veio um conto do Borges para ler nesta coletânea eu já sabia que deveria ter uma dupla atenção no momento da leitura. E de fato isso se mostrou verdadeiro porque para ler Borges é preciso ter uma boa maturidade literária. Isso porque, assim como Umberto Eco, Borges brinca com a escrita, cria linguagens próprias dentro de seu trabalho que podem confundir a cabeça do leitor.
Este conto é uma mock story (ou seja uma história "real" fictícia) sobre documentos que comprovam a existência de um planeta chamada Tlon que estaria sendo mantido em segredo por um grupo de intelectuais desde o século XVII. A escrita deste conto é praticamente científica, com Borges sendo o "protagonista" por ter encontrados anotações de um homem chamado Ashe. Estariam sendo formulados uma série de tomos que iriam compor a primeira enciclopédia sobre Tlon. Daí em diante o autor discorre sobre como as linhas de pensamento são diferentes nesse planeta em relação ao nosso.
Agora sim eu consigo entender o que é o labirinto de Borges. Ou pelo menos acho que consegui entender. Ao criar uma história dentro de uma história, somos levados a acreditar que aquilo que o autor está escrevendo constitui algo verossímil. Em vários momentos ao longo da narrativa você coça a cabeça e se questiona o quanto de fantasioso seria aquela história. A escrita é tão séria que chega a parecer realmente um paper enviado a uma universidade. Existe todo um tom professoral na metade da história em que o autor compara filósofos famosos às linhas de pensamento de Tlon. E o mais impressionante é que muitas dessas ideias malucas são apresentadas de uma maneira que faz total sentido. E aí, o questionamento é, será que estas ideias são tão malucas assim ou só pensamos desse jeito porque não conseguimos nos descolar de nosso senso de realidade?
Sistemas de pensamento são apresentados em vários campos de conhecimento: temos um questionamento sobre linguagem, uma formulação matemática, uma nova maneira de encarar a física. O autor até mesmo brinca com questionamentos teológicos ao apresentar uma forma alternativa de enxergar o que é o divino. Insisto que essa não é uma leitura para qualquer um, porque é preciso ler com atenção redobrada para captar as nuances daquilo que ele apresenta nas linhas. Existem formulações extremamente avançadas sobre linguística em que ele cria uma espécie de idioma diferente que suprime ou modifica algumas palavras. E o autor faz um estudo comparativo entre a linguagem tloniana e a nossa. Ou seja, leitores acostumados com o ritmo atual de narrativas não vai conseguir se adaptar a este estilo mais abstrato de apresentar um texto.
Adorei esta experiência de ler Borges. É algo que eu preciso ter a disposição certa para encarar. Mas, é de uma riqueza ímpar ler algo escrito por ele. Já vou pegar o Aleph com muito mais tranquilidade do que antes.
6 - "Deception"
Autor: Clifford D. Simak Avaliação:

Publicado originalmente em 1944
Essa não é a minha primeira experiência com o Simak. Já li um romance chamado A Cratera da Morte e a pegada do autor é bem ingênua em alguns pontos e emotiva em outros. Este é um dos autores mais clássicos da Era de Ouro e um dos menos conhecidos por aqui. Talvez por suas histórias não terem aquele amplo espectro como as obras de Clarke e Asimov ou um tom atemporal como as de Bradbury. No entanto, através da escrita de Simak conseguimos descobrir um pouco das preocupações de cientistas e estudiosos de astronomia na época.
Em Desertion temos um grupo de exploração que chegou a Júpiter e deseja explorar a "superfície" do planeta. Para isso era necessário transformar os astronautas em criaturas típicas da atmosfera de Júpiter, os Lopers. Esses eram seres formados de amônia e hidrogênio, tendo uma constituição diferente da nossa. Só que a expedição perdia cada vez mais astronautas que desapareciam após passarem pela transformação e adentrarem na superfície livre do planeta.
Um dos temas mais comuns nas histórias de Simak é a transformação dos seres humanos em outras criaturas de forma a realizar a chegada em outros planetas. Mas, isso incorre em certos perigos que o autor volta e meia trabalha em suas histórias. Aqui temos um chefe de expedição precisando lidar com a dura realidade de ter de escolher um de seus astronautas para realizar uma experiência suicida no planeta. Uma das cenas mais tocantes do conto é ele revendo fichas de funcionários e tentando ver qual deles deveria ser o próximo: o pai de família que deixou filha e esposa para trás, o jovem que ainda tem uma longa vida pela frente ou o homem que está prestes a se aposentar após anos de serviço? Trata-se de uma escolha difícil e que não possui uma resposta adequada e justa. Quando um astronauta se envolve nesse tipo de situação não há muita perspectiva de retorno.
Ao mesmo tempo temos o tema da transcendência sendo trabalhado pelo autor. Estamos no controle de toda a nossa capacidade ou somos seres atrasados que dependem de sentidos e cujo cérebro ainda não alcançou um nível transcendente? Será que o responsável por isso é o fato de sermos seres formados principalmente por água e oxigênio ou haveria uma composição química que favoreceria a expansão de nossos sentidos? Outros autores também irão se debruçar sobre o tema como o próprio Arthur C. Clarke em seu Encontro com Rama.
A escrita de Simak é muito ágil e fluida, sendo uma das responsáveis por tê-lo tornado uma referência em ficção científica na década de 1940. Os diálogos são fáceis de entender e os personagens são bem construídos e humanos. Não vou contar mais detalhes da trama porque eu recomendo demais a leitura deste conto. Em uma sentada é possível terminar a leitura.

Ficha Técnica:
Nome: The Big Book of Science Fiction
Autores: Jeff Vandermeer e Ann Vandermeer
Editora: Vintage
Gênero: Ficção Científica
Número de Páginas: 1216
Ano de Publicação: 2016
Outras Publicações:
Parte 9
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